Jovem desaparecido que se escondia em uma caixa de papelão em frente ao prédio da antiga Rodoferroviária é localizado graças à persistência de um sem-teto. Agradecidos, os familiares do garoto de 22 anos adotaram o herói do dia
![]() |
Alívio e sorrisos da mãe, ao lado do filho sumido desde o início do mês: após localizá-lo na Rodoferroviária, os parentes passaram no Hospital Regional do Guará para avaliar a saúde dele |
Nem policiais militares nem agentes da Polícia
Civil. Quem encontrou o aluno do Centro Universitário de Brasília (UniCeub)
Felipe Dourado Paiva, 22 anos, e o devolveu à família foi um morador de rua.
Adeílson Mota de Carvalho, 37 anos, reconheceu o jovem desaparecido desde o
último dia 9, ganhou a confiança dele, conferiu a foto em um cartaz colocado em
uma feira popular, acionou a polícia e pediu ajuda a outras pessoas para conter
o estudante até a chegada dos familiares dele.
Adeílson caminhava em direção à Água Mineral,
por volta das 11h, quando parou para pedir informação a alguém dentro de uma
caixa de papelão. O desconhecido estava sob uma mangueira e uma jaqueira, em um
canteiro em frente à Rodoferroviária, a cerca de 100m de um posto de Segurança
Comunitário da Polícia Militar. O estranho disse que não poderia sair do local,
porque dormia. Mandou o morador de rua voltar mais tarde. “Fiquei encasquetado
e, na volta, fui ver quem era aquela pessoa”, contou. ...
Ao reencontrá-lo no mesmo lugar, por volta das
14h, Adeílson suspeitou que o jovem era o mesmo dos cartazes de desaparecido
distribuídos em alguns pontos da cidade. “Perguntei se ele tinha almoçado. Ele
falou que não. Então, disse que ia comprar marmita para nós dois”, lembrou. Mas
o rapaz recusou a oferta. Para contê-lo, o morador de rua disse que compraria
doce para ambos e pediu que ele permanecesse ali. Adeílson caminhou um pouco
mais e avisou alguns instrutores de motoescola, que dão aulas práticas no
estacionamento da Rodoferroviária, para ficarem de olho no jovem.
Adeílson seguiu até a feira popular, perto do
antigo terminal. Lá, encontrou um cartaz de desaparecido fixado pela família de
Felipe. Ao conferir a foto, não teve dúvida. Comprou doces e voltou para
debaixo das árvores. “Ele já não estava lá. Procurei em volta e o vi em cima da
jaqueira”, comentou o morador de rua. Naquele momento, um grupo de instrutores
fazia uma espécie de cerco ao garoto, que reclamou com Adeílson. Disse que ele
o havia “dedurado”. Para acalmá-lo, inventou que pessoas próximas suspeitavam
que ambos estavam de olho nos veículos delas.
Emoção
Para ganhar a confiança de Felipe, Adeílson
subiu na árvore e começou a conversar. Em certo momento, chamou-o de Felipe e
perguntou por que ele havia saído de casa. O jovem reagiu negativamente.
Respondeu que se chamava Henrique Prado. Certo da identidade, Adeílson usou a
desculpa de conseguir um cigarro e foi ao posto comunitário da PM. Pediu para
um policial telefonar à mãe de Felipe, pois o havia encontrado. E pediu aos
soldados para não irem até a árvore, por medo de o jovem fugir. Os PMs ligaram
para a mulher.
Em menos de 10 minutos, um primo e a irmã de Felipe,
Priscila Dourado, 26 anos, chegaram ao local. “Ao ver o irmão, a menina começou
a chorar e a tremer. Até chorei junto”, relatou. Priscila nada disse. Apenas
abraçou o garoto. Felipe, então, quis voltar para casa. Antes disso, os
parentes o levaram ao Hospital Regional do Guará. O garoto vestia a mesma roupa
com a qual desapareceu. A família pediu que não fosse divulgado detalhes sobre
o estado de saúde dele, que deixou o hospital por volta das 18h30. Foi,
finalmente, levado para a casa de parentes.
"Ao ver o irmão, a menina (Priscila
Dourado) começou a chorar e a tremer. Até chorei junto”
Adeílson Mota de Carvalho, 37 anos, morador de
rua que encontrou Felipe
Fonte: Correio Braziliense - 23/08/2013